Em mercado de luxo paulistano em recorde histórico, uma nova geração de operações imobiliárias aposta na restrição deliberada. Casa Uno opera quatro projetos sob curadoria ativa e lança o A Mata 118, na Fazenda Morumbi, como manifesto de sua filosofia.
Há um movimento silencioso recompondo o segmento residencial de altíssimo padrão em São Paulo.
Enquanto o mercado de luxo e superluxo paulistano fechou 2025 com mais de R$ 28 bilhões em Valor Geral de Vendas (VGV) – alta de 21,5% em unidades vendidas, segundo a Brain Inteligência Estratégica – surge uma categoria de operação que se define pelo oposto da escala: poucos projetos por ano, terrenos de escassez estrutural, recusa explícita do modelo de lançamento por catálogo e integração entre patrimônio, arquitetura e contexto urbano como princípio.
A Casa Uno Properties representa esse movimento de forma inaugural no Brasil. Fundada por Cleberson de Lima, executivo com trajetória nos mercados financeiro e imobiliário, a companhia opera atualmente quatro projetos sob curadoria ativa em São Paulo.
“Trabalhamos com convicções, não com lançamentos”, afirma Cleberson de Lima. “Cada projeto é concebido a partir de uma lógica de permanência. Quatro projetos não representam limitação operacional. Representam posicionamento.”
O contraste com o modelo tradicional de incorporação é deliberado. Apenas o primeiro trimestre de 2025 registrou crescimento de 238,9% em volume financeiro no segmento de alto padrão paulistano em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo a Brain. É justamente nesse cenário de aceleração que a Casa Uno adota o movimento inverso.
“Em um mercado orientado por escala, optamos pela restrição”, diz o fundador. “Cada ativo recebe atenção irrestrita. É a única forma de preservar integridade arquitetônica, narrativa e patrimonial.”
O principal projeto da companhia atualmente em pré-lançamento é o A Mata 118: três residências em condomínio boutique na Fazenda Morumbi, no eixo entre Cidade Jardim, Real Parque e Panamby – região que concentra Hospital Albert Einstein, escolas internacionais como Graded, Avenues, Lycée Pasteur, Porto Seguro, Cervantes e Pio XII, além do Parque Burle Marx, Shopping Cidade Jardim e JHSF Surf Club. O ticket médio é de R$ 11,7 milhões por unidade.
“O que define o projeto é a mata atlântica preservada que o envolve”, afirma Cleberson de Lima. “Do interior das residências, o skyline da cidade aparece entre a copa das árvores como uma paisagem em movimento. A natureza não é amenidade. É a fundação do programa arquitetônico.”
A filosofia se replica nos outros projetos do portfólio, cada um estruturado a partir de uma tese própria de singularidade.
O Residencial Vista propõe o retrofit de uma residência modernista dos anos 1970 no Cidade Jardim, preservando a linguagem original de volumes puros e lajes livres enquanto atualiza infraestrutura e sistemas ao século XXI.
Já o Complexo Centro restaura três edifícios no centro histórico de São Paulo: um hotel de luxo em edifício da década de 1920, uma torre residencial integrada a serviços hoteleiros, restaurantes de chefs internacionalmente reconhecidos e a reativação de um dos cinemas mais emblemáticos e sofisticados da América do Sul nos anos 1950 como equipamento cultural.
O Condomínio 1900, por sua vez, preserva uma edificação histórica projetada por Ramos de Azevedo no centro de um terreno de mais de 30 mil metros quadrados na zona oeste da capital, incorporando ao entorno vinte residências de ultra luxo e uma capela restaurada.
“Cada projeto nasce de uma impossibilidade de repetição”, resume Cleberson de Lima. “Mata atlântica preservada dentro da cidade, modernismo brasileiro reinterpretado, patrimônio histórico restaurado, terrenos cuja combinação entre localização, natureza e contexto urbano já não pode mais ser reproduzida em São Paulo.”
O contexto macroeconômico reforça o movimento. Diferentemente do mercado de média renda, o segmento de altíssimo padrão opera menos exposto ao crédito tradicional. Com a Selic elevada, compradores altamente capitalizados ampliam sua capacidade de alocação patrimonial em ativos reais escassos.
Family offices e ultra-high-net-worth individuals (UHNWIs) vêm recompondo carteiras com maior peso em ativos imobiliários de escassez estrutural, segundo relatórios do Knight Frank Wealth Report e da UBS.
Para Fábio Tadeu Araújo, CEO da Brain Inteligência Estratégica, o atual ciclo do superluxo paulistano reúne uma combinação rara de fundamentos: comprador descorrelacionado do crédito tradicional, oferta limitada de terrenos qualificados e crescente sofisticação do produto.
“O comprador desse segmento responde a outra lógica: preservação patrimonial, diversificação e busca por ativos escassos em regiões consolidadas”, afirma Araújo. “A restrição de terrenos qualificados em São Paulo e a especialização das operações tendem a tornar o segmento ainda mais seletivo. O movimento de curadoria, com poucos projetos e foco em singularidade, é coerente com a maturidade desse ciclo.”
O perfil de comprador da Casa Uno reflete essa lógica.
“Nosso cliente não busca apenas um imóvel”, diz Cleberson de Lima. “Busca um ativo alinhado à sua visão de mundo: discreto, raro e permanente. O ciclo de decisão se aproxima muito mais de uma alocação patrimonial do que de uma aquisição residencial tradicional.”
A janela de execução da tese, reconhece o fundador, exige disciplina.
“No segmento em que atuamos, crescer rápido compromete percepção”, afirma. “A Casa Uno cresce com densidade, não com metragem. São projetos concebidos para atravessar gerações, não ciclos trimestrais.”